Discorrer sobre relações entre diferentes assuntos é uma forma de sistematizar a construção de um conhecimento e de tornar mais abrangente nossa visão de mundo. De fato, todas as coisas estão relacionadas em maior ou menor grau, direta ou indiretamente. A consciência desta realidade deriva de nossa capacidade perceptiva e cognitiva.
Para nós as coisas parecem ser como as vemos. Parecem. Somos capazes de perceber somente uma parte do espectro luminoso que nos cerca. Assim também é com os sons. Nossos ouvidos captam freqüências e nosso cérebro interpreta estes impulsos elétricos nos causando sensações. Somos capazes de perceber freqüências baixas entre 16 e 20 Hz. As mais altas atingem 25.000 Hz. A partir destes limites, parecem que não existem. No entanto, outros animais como baleias e morcegos são capazes de ouvir diferentes faixas freqüenciais.
Tudo produz som, já que as moléculas vibram e emitem freqüências. Trata-se de um fenômeno natural. A música, por sua vez, é resultado de um trabalho humano, transformando o som em ciência e arte. Seus princípios fundamentais são ritmo, tonalidade, dinâmica e timbre.
Ao se ouvir música nossos sentidos despertam. Sons graves atuam nas vísceras e nos conectam com o chão, com instintos mais básicos. Os agudos, por sua vez, são mais mentais, intelectuais. Determinadas músicas incitam nosso corpo a movimentos específicos. O impulso para a dança para expressar emoções é algo tão antigo quanto se possa imaginar. O ritmo aliado ao gesto certamente foi uma das primeiras formas de comunicação humana. Ainda que a dança possa ocorrer sem acompanhamento musical, o movimento em si sugere música e vice versa.
A emissão e propagação do som seguem conceitos físicos. A energia se desloca da maior concentração para a menor. Diferença gera movimento. O aikido é uma linguagem na qual fluxos de diferentes direções, sentidos e intensidades são lidos e redirecionados para um determinado fim, trabalhando o movimento também como ciência e arte.
Música e aikido têm o movimento como um elemento comum. A forma de se desenvolver nestas artes também é muito parecida. Como linguagens que são, pedem atenção. Ordenar fluxos depende da compreensão e consciência de suas qualidades, assim como ordenar as ondas sonoras. Talvez uma definição para barulho ou ruído seja um som não bem vindo. O que diferencia um barulho de uma nota musical é a regularidade da freqüência emitida. Música é resultado de uma organização de freqüências. São ondas em movimento ordenadas e direcionadas para um determinado resultado.
Ao estudarmos um instrumento musical, nos deparamos com questões técnicas. Assim como no aikido, a postura adequada é fundamental. Antes de aprendermos a falar é preciso ouvir. No desenvolvimento de ambas as artes usar a percepção para assimilar os conceitos das linguagens é condição “sine qua non”. É muito importante treinar lentamente. Assim, dá tempo para o cérebro assimilar os detalhes. A repetição traz familiaridade com o movimento e a velocidade vem naturalmente.
É interessante imaginar quão grande pode ser o envolvimento da mente/corpo com atividades deste tipo. Pensamentos e sentimentos também geram freqüências e se relacionam com freqüências externas. Quando o ser está sintonizado com a música ou com os movimentos do aikido ocorre uma adequação frequencial. Como quando duas cordas de um violão afinadas na mesma nota vibram juntas, ainda que só uma delas tenha sido tocada. A unificação gerada por esta sintonia traz um grande bem estar e eleva o estado de espírito. Claro que o efeito pode ser nocivo, dependendo de como estas linguagens estão sendo praticadas. Todo poder pode ser usado de forma construtiva ou destrutiva.
Tanto a música como o aikido têm aspectos terapêuticos. Na fisioterapia, fala-se que movimento cura movimento. Ou seja, a prática de um movimento errado gera lesão. O movimento corretamente orientado a recupera. A natureza gera padrões. Música e aikido são formas construídas a partir desta matéria prima. Não são criações artificiais, mas formas inteligentes de se lidar com forças naturais possibilitando entre outras coisas melhor estilo de vida e manutenção de saúde integral.
Lamentavelmente, a indústria se apossou da música colocando-a na posição de um produto a ser consumido. A tecnologia a este serviço a mecanizou com os aparelhos de som e gravações. O interesse em atingir as massas a nivela constantemente por baixo. Seus aspectos terapêuticos estão quase que totalmente esquecidos, assim com seus valores de integração social e de formação pessoal. De certa forma, o aikido também segue esta tendência. É de suma importância a compreensão de seus verdadeiros princípios e propósitos para que este tesouro não se perca. Muito valioso é o esforço daqueles que prezam pela boa prática do aikido e da música de qualidade. Ainda que sustentando um trabalho discreto, mas de grande responsabilidade, tornam-se os guardiões de recursos nobres que são verdadeiros patrimônios da humanidade.
Antônio de Pádua Moreira de Souza
5º dan pela International Aikidō Federation (IAF)
Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikidō (ACAI)

