Categoria: Artigos

  • O conteúdo do Aikido – por Pádua Sensei

    O Aikido é uma arte marcial de origem japonesa. Como o conteúdo das artes marciais gira em torno da idéia de luta, defesa pessoal, ou esporte competitivo, cabe aqui uma série de explicações.

    O termo “marcial”, no Ocidente, nos remete à guerra. Marte é o deus grego. Mesmo na astrologia, o planeta Marte é o “Senhor da Guerra”. Ele está associado com a nossa natureza animal, nossos desejos, impulsos sexuais. Mostra força, de trabalho, de luta, a construção, e ao mesmo tempo, a morte. Domina o ferro e o aço, as armas, associa-se aos ferimentos, à violência. Marte no horoscopo diz-nos onde colocamos mais energia. É natural, portanto, que as atividades que envolvam lutas sejam chamadas de artes marciais. A maioria delas está ligada ao esporte, cuja imagem, questionavelmente, pretende-se dissociar da guerra. Nós sabemos que ao mesmo tempo que Marte também rege as ferramentas, com as quais podemos montar e desmontar, construir e destruir.

    As pessoas são, de fato, instrumentos de suas próprias vidas. Não têm qualidades ou defeitos de forma forma absoluta, mas sim, características que se mainifestam positivas ou negativas conforme as circunstâncias. Entender-se como tal, trabalhar suas próprias limitações, explorar suas capacidades, compreender e aceitar tais características justificaria qualquer esforço por parte daquele que busca bem-estar, naturalidade em suas ações, um estado de maior integração entre si e os outros.

    O termo “Budo”, que virou arte marcial,se traduzido ao pé da letra do japonês para o esperanto, se tornaria “o caminho da guerra”. Mas a escrita japonesa, de origem chinesa, usa caracteres que expressam um conjunto de valores, o que permite diferentes leituras e interpretações. “Do”, por exemplo, pode significar rua, estrada, filosofia de vida, ou uma linha de conduta. Traduções diretas do “kanji” podem implicar erro de interpretação. As armas estão também ligadas à idéia de proteção, não necessariamente destruição. A guerra à serviço da paz. Armas para a manutenção da paz.

    Na luta esportiva existem regras. O treinamento se dá dentro de uma gama limitada de ação. Quebrar as regras significa perder pontos. Os atletas são separados por categorias como grau, peso, idade, e assim por diante. O objetivo é superar o outro, ser campeão. Normalmente se treina para uma data específica, um evento, para enfrentar alguma adversário conhecido e previamente estudado. Diferentemente, no Aikido não há competição. O treinamen todo é para todos os momentos.

    No Japão feudal, o samurai ocupava uma posição de destaque na sociedade. Não era um simples soldado. Sua formação e educação eram muito elevados. Sua instrução era iniciada quando criança, e seguia ao longo de toda sua vida. Sua função estava diretamente ligada à idéia de proteger os interesses do palácio e de seu mestre. Não treinava para uma luta específica, mas sim, para estar cada vez mais preparado. Meia hora de negligência poderia significar um atraso importante frente aos seus inimigos potenciais, poderia valer sua vida ou a vida de seu mestre.

    O fundador do Aikido (Morihei Ueshiba) herdou, dentro de um processo cultural, o espírito do Budo. Ele dedicou-se ao estudo de muitas escolas marciais, experimentando os seus métodos na prática, uma vez que participou de muitas batalhas, incluindo a guerra da Manchúria. Depois de alcançar um nível técnico muito alto, procurou elevar os seus conhecimentos na área da espiritualidade. Entendeu que o verdadeiro Budo deve ser direcionado para a proteção de todas as coisas.

    Raramente nos deparamos com ataques físicos. No entanto, ataques de ordem moral ou social são muito frequentes. Quase todo dia encontramos problemas no trabalho, na família, dificuldades emocionais, sentimentais, e assim por diante. Saber “defesa pessoal” significa muito mais do que desenvolver um conjunto de capacidades técnicas para o contato físico. Significa saber defender os seus próprios interesses. Assim, o conceito de “arte marcial” pode se aproximar de “arte da vida”, e o treinamento cotidiano transformar-se em filosofia de vida: “DO”.

    Definir uma linha de trabalho implica explicar seus princípios e definir o seus propósitos. O Aikido só pode ser vivido de fato, se essas coisas forem bem entendidas e assimiladas. Compreender algo intelectualmente é uma parte. Incutir um conceito e torná-lo automático requer muita prática e determinação. Assim, podemos dizer que a busca do aikidoista não é só o desenvolvimento do movimento correto, mas da atitude certa: a postura. E, ao mesmo tempo, a prática de tais movimentos será instrumento de aprendizagem e de manutenção desta mesma postura, entendida como uma atitude, não apenas como algo físico, estético, externo, mas também interno, um estado de espírito, a integração com o ambiente a ser expressa pela unidade. A capacidade de agir, de se deslocar dentro desta postura, seria o segundo nível. Ao contrário do que muitos pensam, uma a escola marcial se estuda através de sua postura, não de suas técnicas.

    Atingir objetivos para o Aikido implica maleabilidade de meios. O confronto é sempre uma forma difícil, mas há muitas outras maneiras. Quando andamos pela cidade de carro, é preciso parar no sinal vermelho, desviar de vários obstáculos, e por causa de uma rua “contra-mão”, muitas vezes vamos na direção oposta ao lugar que queremos ir. Olhando para o mapa das ruas, vemos que damos muitas voltas para chegar ao nosso objetivo. O caminho mais curto nem sempre está disponível. Pode também não ser o mais seguro. Escolher o caminho certo depende também de avaliar as circunstâncias do momento. A melhor maneira de se chegar a algum lugar nem sempre é a mesma.

    O Aikido é um trabalho que tem como objetivo desenvolver no praticante certa mentalidade. A parte técnica realmente serve como um instrumento para a realização de um elevado grau de autoconhecimento e conscientização. O benefício real do trabalho é o desenvolvimento pessoal, a melhoria da percepção, a integração com o meio ambiente, a manutenção da saúde física, mental e emocional. A capacitação para a defesa pessoal é um subproduto do trabalho. A busca é, mais profundamente, por um ser humano melhor, consequentemente por uma sociedade melhor.

    Antonio de Pádua Mello Moreira de Souza
    Faixa-preta 5° grau
    Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikido-ACAI

  • O treino de armas e alguns princípios do Aikidō – por Yannick Caubet

    Bokutō - Pádua Sensei
    Postura com Bokutō – Pádua Sensei

    O treino de armas, muito além de simplesmente desenvolver certa habilidade e fluência no manejo de alguns instrumentos, proporciona ao praticante a chance de treinar com uma abordagem nova (distinta daquela feita nos treinos de mãos vazias) uma série de conceitos e princípios que têm vital importância no estudo ao Aikidō. É ver:

    Maai – O maai, traduzido literalmente, significa “a distância harmônica”, sendo um princípio de importante conteúdo para a prática do Aikidō. Como o próprio nome sugere, indica a distância correta que o praticante deve manter de seu antagonista, distância que se situa além da envergadura de ataque deste. Justamente, o treino de armas favorece o estudo de tal conceito, uma vez que, neste tipo de prática, os participantes têm seu alcance físico ampliado pelo instrumento que empunham. Para o aikidoísta que treina o maai, o fato de seu oponente possuir uma arma em mãos implica realizar uma correta avaliação das possibilidades deste, que vão variar conforme o posicionamento (hanmi no kamae) e o tipo de arma, haja vista ser o bastão muito mais maleável, em termos de movimento, do que a espada. Assim, aos poucos desenvolve-se a sensibilidade do praticante em avaliar corretamente a situação em que se encontra. Tal sensibilidade, como em tudo no Aikidō, tende a extrapolar a mera prática no dojo, e passa a acompanhar o aikidoísta no seu cotidiano. Até mesmo porque o conceito de maai não se limita a este sentido físico estrito que se acaba de explicitar, mas envolve a sensibilidade da pessoa em perceber o máximo de manifestações possíveis à sua volta (e acrescentaríanos, no seu interior), os objetos que a cercam, o estado de ânimo das pessoas, as suas intenções, etc. Maai também remete a uma noção do que os ingleses chama de timing, isto é, a ação no tempo correto. Um kata de Aikidō, que seja bem a tempo e que respeite a fisiologia do movimento humano, faz o uke ter uma sensação de completo vazio, como se fosse abrir uma porta e, do outro lado, alguém a abrisse um instante antes, na mesma velocidade, fazendo-o cair num vácuo; idealmente, ter o nage um bom maai significa oferecer tanto negativo quanto o uke lhe oferecer positivo, tanta aceitação quanto o uke oferecer iniciativa, para somente a seguir assumir a condução e finalizar o movimento. É bom ressaltar que se trata de um conceito prático, desenvolvido com o treinamento constante e consciente, não podendo ser apreendido com a leitura de textos ou com esforço apenas intelectual. Tal ressalva, aliás, é válida para todos os conceitos trabalhados em Aikidō.

    Tai sabaki – novamente começando com a tradução mais literal, tai sabaki é o “movimento do corpo” quer dizer, o princípio do deslocamento. O tai sabaki não significa apenas “se movimentar”, mas antes encerra um sentido finalístico estratégico, pois é em essência um movimento realizado com a intenção de se alcançar determinada posição relativa mais vantajosa, realizada em consideração à posição inicial do oponente e de seu deslocamento (velocidade/direção). A posição que se busca é a de sombra em relação ao antagonista, um lugar em que ele não possa ver nem alcançar, mas em que é visto e está ao alcance. Claro que tal posição, além de relativa, é efêmera, pois o dinamismo dos movimentos sempre tende a colocar os praticantes novamente em conflito, a não ser que um deles, harmonizando-se ao movimento do outro (situação de unidade), consiga conduzi-lo de maneira eficiente. Uma conclusão a que se chega é que nenhum praticante pode desenvolver o tai sabaki, que implica deslocar-se em função do outro, se antes não dominar as técnicas do próprio deslocamento, isto é, o auto-controle e a excelência na execução de tenkan, irimi, avanços, recuos, passos e passadas (em uma palavra, o caminhar), motivo pelo qual os movimentos básicos do Aikidō devem ser treinados à exaustão. Justamente, o treino de armas é uma excelente oportunidade de se praticar o tai sabaki e os movimentos em geral em um ambiente que exige mais do praticante, pois se é relativamente fácil contornar um oponente de mãos vazias, um uke com uma espada impõe ao nage a necessidade de deslocamentos maiores, mais rápidos e mais precisos. Pode-se assim dizer que o estudo do tai sabaki no treino de armas torna muito mais fácil a execução de movimentos eficientes no treino de mãos vazias, ampliando a noção de espaço-tempo do praticante e sua fluência no deslocar-se.

    Hara – situado aproximadamente quatro dedos abaixo do umbigo, o hara é o centro físico e energético do corpo humano. Para os japoneses, o hara é onde está a alma, e não à toa o ritual do seppuku (auto-imolação praticada antigamente pelos Samurais, por questões de honra) se dá justamente através do harakiri, literalmente o “corte do hara”. O centro e a centralidade são fundamentais na prática do Aikidō. Primeiro, num sentido mais metafórico (que se pode discernir, por exemplo, na expressão “fulano é um sujeito centrado”), o centro é a postura interior que o praticante precisa desenvolver, como pré-requisito básico para todo o posterior treinamento. A postura (por definição um estado de ânimo interior, que naturalmente se expressa externamente) é o primeiro princípio do Aikidō. É, idealmente, um estado de concentração no hara (também chamado de saika tanden), em que o intelecto não mais predomina, em que o praticante não anseia, não busca antecipar eventos ou formular hipóteses com o uso exacerbado do raciocíonio (bem ao contrário, como se vê, do cotidiano do homem ocidental, ou ocidentalizado). Tentando exemplificar, uma boa postura do nage é aquela em que ele não se preocupa com o que o uke vai fazer, se ele vai chutar ou socar, na cabeça ou no abdômen, ou em que momento específico vai ele realizar seu movimento; o nage deve apenas aguardar sereno e agir conforme a necessidade e a possibilidade, procurando harmonizar uma situação que a ele porventura se apresente. No treino de mãos livres, pela situação de improviso e de sensibilidade de leitura que exige, o jiu waza é um excelente exercísio e postura centrada, no sentido que se acabou de discorrer. Já no treino de armas, a presença de uma espada ou de um bastão nas mãos do uke tende a assustar e deixar mais ansioso o nage, que haverá de redobrar esforços de concentração no sentido de alcançar este estado de alerta relaxado que é a postura. A habitualidade no treino de armas, assim, desenvolve no praticante um mais rápido desenvolvimento da postura, e uma maior fluência em voltar a centrar sua energia quando porventura uma situação externa o tire do centro. Com o tempo, o praticante tende a treinar em tal estado meditativo, e a levá-lo para sua prpática cotidiana, de modo a contornar ou minimizar situações de stress, grande causador de males psíquico-físicos nos tempos atuais.

    Agora de um ponto de vista mais técnico-marcial, não dissociado daquele outro, a centralidade é a melhor geometria física para a execução dos movimentos pelo nage e a sua conução do uke. No centro físico é possível concentrar com mais facilidade todo o esforço do corpo, isto é, obter o máximo de resultado com o mínimo de força. Ao praticante observador não escapará que a quase totalidade dos movimentos de Aikidō é realizada no centro ou em posições geométricas simétricas a ele, e que uma das principais dificuldades dos praticantes iniciantes reside justamente na perda do centro durante a condução, geralmente por dificuldades na coordenação de movimentos, e na necessidade de pensar durante a execução do kata. O treino de armas melhora sensivelmente a noção de centralidade do praticante, na medida em que a espada e o bastão funcionam como uma espécie de baliza para a posção correta do corpo, um indicador material e palpável de onde deve se situar o kamae. É impossível, fora do centro, realizar um corte de espada eficiente ou conduzir alguém com o auxílio de um bastão, de modo que o praticante do treino de armas rápida e instintivamente aprende a trazer seus movimentos à frente do centro, e a levar seu centro para onde está o movimento, imprimindo, no ponto de foco, a energia de todo o corpo, agindo coordenadamente na condução. Neste sentido, o treino de armas também contribui para a plasticidade dos movimentos do praticante, o que em Aikidō é sinônimmo de eficiência na execução das técnicas.

    Kokyu – a respiração correta é esencial para a vida, e do seu ritmo e completude derivam diretamente o estado de ânimo de qualquer pessoa. Uma função tão fundamental para o ser humano naturalmente tem grande relevo na prática de Aikidō. O correto respirar é definitivo para se alcançar a postura centrada de que já se falou. Do ponto de vista técnico, a respiração, juntamente com a mentalização, é um dos elementos sutis que devem ser coordenados com o movimento do corpo dentro do objetivo de aprimoramento o kata; saber quando inspirar e quando expirar é muito importante para uma técnica fluída e bem executada. Os momentos ou fases da respiração são fáceis de assimilar no treino de armas, pois nele se executam movimentos amplos em que predomina nitidamente uma fase negativa ou positiva do respirar, como por exemplo no corte da espada: eleva-se a lâmina inspirando, criando potencial, para em seguida cortar expirando, dando vazão ao potencial criado; o movimento do corte treinado repetidas vezes (não de modo mecânico, mas consciente) faz o praticante assimilar a correta respiração sem a necessidade de se preocupar com ela – pois vai ocorrer naturalmente – e o condiciona a respirar de maneira saudável e eficiente em todos os outros movimentos que realiza posteriormente, inclusive no treino de mãos vazias.

    Kiri – Do corte de espada deriva diretamente a maior parte das técnicas do Aikidō. Assim, estudar técnicas com a espada é conhecer, em certo sentido, a etimologia dos movimentos no Aikidō, sua origem primeira. E muitas questões técnicas importantes podem ser diretamente transferidas do manejo da espada para o treino de mãos livres , como o corte (kiri), isto é, a combinação de pressão (feita na chave, por exemplo) com deslizamento (translação do corpo). É sabido que a força de um kata reside justamente na capacidade de se coordenar um maior número possível de movimentos, juntamente com respiração, mentalização e sentimento, e o treino de armas desenvolve tal coordenação intensivamente, ao dificultar os movimentos pela inserção de um elemento alheio (pelo menos no princípoio) ao praticante. Por outro lado, é detalhe bastante fundamental a produção de contraste (positivo-negativo) para a obtenção de uma técnica eficiente, de modo a conseguir um movimento da arma rápido, forte e sem tensão. Nas técnicas de mãos livres, o contraste é aplicado na quase totalidade dos kata, como uma forma de gerar desequilíbrio e tornar leve a condução; o melhor exemplo neste sentido talvez seja o tenchi nage, embora, como dito, em todas as técnicas deva estar presente a polarização do movimento. Finalmente, de se destacar que o treino de armas, principalmente com o bastão, é uma forma bastante didática de se apreender as técnicas de alavanca, que sempre são bem nítidas neste tipo de prática, até mesmo por uma questão de necessidade do movimento.

  • Glossário de termos usados no Aikidō

    Ai
    No Aikidō, traz a ideia de Adequação, embora costume-se traduzir de forma menos precisa como unificação, harmonia.
    Aikidō
    O caminho de adequação da energia.
    Arigatō gozaimashita
    Muito Obrigado. Agradecimento formal que é usado com os colegas de treino.
    Bokutō
    Instrumento de madeira voltado para treino de armas, emulando um katana (espada samurai).
    Bōnenkai
    Treino geral que comemora o encerramento do ano (não corresponde necessariamentre ao encerramento dos treinos).
    Budō
    É o caminho das artes marciais. Representa a filosofia do indivíduo que busca o auto conhecimento e a elevação espiritual através da prática das artes marciais.
    Dan
    Graduações da faixa preta.
    Deshi
    Aluno.
    Caminho espiritual.
    Dō itashimashite
    Não tem de que. De nada. Resposta a um agradecimento.
    Dōjō
    Local especial para aprender e exercitar o caminho.
    Dōmō arigatō gozaimashita
    Muitíssimo obrigado. Agradecimento muito respeitoso. Deve ser usado para instrutores, mestres e pessoas bem conceituadas. Na dúvida, fique atento aos colegas mais veteranos.
    Dōshu
    Chefe geral de um grande movimento. O dono do caminho. O primeiro da hierarquia.
    Gi
    Vestimenta de treino (pronuncia-se “gui”).
    Hakama
    Vestimenta tradicional originalmente utilizada pelos samurai, é semelhante a uma calça larga vestida sobre o gi pelos yudansha.
    Hanmi
    Posicionamento do corpo.
    Henra waza
    Técnicas de contra-golpe.
    Irimi
    Movimento que entra no centro do uke.
    Bastão curto (120 cm).
    Kaiso
    Fundador de uma arte marcial.
    Kata
    Forma do movimento.
    Ki
    Energia espiritual, mente, sentimento.
    Kōhai
    Estudante iniciante. Aquele que iniciou seu estudo de Aikidō depois de você.
    Kōshukai
    Treino geral.
    Kyū
    Níveis de proficiência anteriores à graduação (faixa preta), identificados por faixas coloridas.
    Mae
    Frente.
    Nage
    Aquele que aplica a técnica. Pronuncia-se “naguê”.
    Omote
    Frente. Movimento realizado pela frente do uke.
    Onegai shimasu
    Por favor. Usado no início do treino, ao subir no tatame e ao pedir por ajuda.
    Osakinishitsurei shimasu
    Pedido para retirar-se do treino antecipadamente.
    Seiza
    Posição sentada sobre os tornozelos. É a forma correta e formal de permanecer sentado.
    Senpai
    Estudante veterano. Aquele que começou a estudar o Aikidō antes de você.
    Sensei
    Professor. Mestre.
    Shihan
    Mestre dos mestres. Título concedido a mestres muito importantes e que formaram outros mestres.
    Shinenkai
    Treino geral que comemora o início do ano (este também não coincide necessariamente com o início dos treinos).
    Shitsureishimasu
    Desculpe-me, com licença. Usado para quebrar o protocolo.
    Shōdan
    Faixa-preta de primeiro grau.
    Shugyō
    Treinamento espiritual.
    Shikkō
    Caminhar de joelhos.
    Shutto
    Faca da mão.
    Sumimasen
    Desculpe-me, perdoe-me. Usado para pedir desculpas como, por exemplo, quando esbarramos em um colega durante o treino.
    Suwari waza
    Técnicas aplicadas em seiza.
    Tachi waza
    Técnicas de pé.
    Tanden
    Oceano de energia, ponto de concentração (quatro dedos abaixo do umbigo).
    Tatami
    Tablado de palha ou sintético usado nos dojos e residências.
    Tenkan
    Girar o corpo.
    Tori
    O mesmo que nage.
    Uke
    Aquele que ataca e recebe a técnica.
    Ukemi
    Técnicas utilizadas pelo uke para se proteger de danos ao ser arremessado ao chão.
    Ura
    Atrás. Movimento realizado pelas costas do uke.
    Waza
    Técnica.
    Yudansha
    Portador da faixa preta.
    Yudanshakai
    Treino de faixas pretas.
  • Etiqueta no Dōjō

    O Aikidō é originário do Japão. O Grão mestre Morihei Ueshiba (1883 – 1969) concebeu o Aikidō como uma forma de caminho de vida (Dō) visando o aprimoramento do espírito humano. O comportamento do praticante de Aikidō, principalmente dentro da área de treinamento, deve refletir esta busca pelo aprimoramento do ser. Deste modo, seguimos algumas regras de etiqueta que além de demonstrar educação e respeito, ajudam a manter uma atmosfera de cooperação e camaradagem durante as aulas.

    Boas práticas

    1. Sobre o tatame, esteja sempre alerta e mantenha uma postura conveniente.
    2. Depois que o instrutor terminar de apresentar um exercício, agradeça pela instrução e pratique o que foi demonstrado.
    3. Converse o mínimo necessário. Estude o movimento. Aikidō é pratica.
    4. Quando for praticar com um colega, sempre cumprimente, curvando-se, antes do início e depois de terminado o treino específico.
    5. Não deixe o tatame a todo o instante. Deste modo você interrompe a concentração de seus colegas praticantes.
    6. Se for necessário sair por pouco tempo do tatame, curve-se em direção a figura do Grão mestre e saia silenciosamente. Quando for voltar, cumprimente novamente e entre silenciosamente no ritmo da aula.
    7. Esteja com o seu Aikidō Gi sempre limpo. Sempre que possível exponha o gi ao sol para diminuir o efeito do suor no tecido. É conveniente que o praticante tenha mais do que um gi para evitar constrangimento ao seus colegas de treino.
    8. Manter a área de treinamento sempre limpa é responsabilidade de todos.
  • Alongamento no aikidō – por Pádua Sensei


    Ainda se discute muito sobre a melhor forma de se alongar o corpo. Acredito que as variáveis devam se ajustar aos objetivos propostos, e não em uma melhor forma. No aikidō, fazemos inicialmente um “despertar do corpo” perto do que seria um espreguiçar-se. Assim, promove-se também uma integração corpo-mente, pois traz aqueles grupos musculares para uma consciência diferenciada. São poucos segundos em cada postura (15 s a 20 s). Não se força nada. Em seguida, para membros inferiores, são feitos movimentos de aquecimento articular com leve alongamento balístico, uma vez que o interesse agora é fortalecer tendões que serão muito exigidos em razão dos rápidos deslocamentos e giros. Para o caso específico do aikidō, onde o trabalho é basicamente todo funcional, isto basta para se iniciar a prática com segurança e bem-estar. Por último, após o treino, fazemos um alongamento mais demorado, com a intenção de “limpar” os subprodutos do catabolismo. Com isso, auxilia-se o retorno venoso e a captação pelo sistema linfático de ácidos como o pirúvico e lático, impedindo que a musculatura fique dolorida no dia seguinte. Todos eles devem respeitar a condição de cada praticante e ser prazerosos. Assim como nas técnicas do aikidō os alongamentos devem ser aceitos e não impostos. Conhecer e cuidar do próprio corpo também é atitude marcial.


    Antônio de Pádua Moreira de Souza

    5º dan pela International Aikidō Federation (IAF)

    Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikidō (ACAI)

  • Relação Senpai/Kōhai – por Pádua Sensei

    Gakusei em japonês significa aluno, estudante. Porém, em artes marciais tradicionalmente se usa a palavra deshi , onde aparecem os ideogramas ”irmão mais novo” e “criança”. Isto significa que não se trata apenas de mais um aluno em sala, e sim de um membro a mais na família. A partir do momento que se ingressa como aluno em um dōjō, assume-se uma posição hierárquica. Quem começou a praticar antes é denominado senpai . Para os que vieram antes, tal iniciante é o kōhai . Quando se inicia a prática no mesmo dia forma-se a relação dōhai. Estes termos não são títulos. Não se deve chamar seus colegas de treino desta maneira. Trata-se de uma relação onde o que está valendo, de uma maneira simplista, é quando se iniciou a prática. Vejo todos os alunos como representantes do dōjō. Logo, os veteranos devem se preocupar em instruir e propiciar o melhor e mais rápido desenvolvimento para seus kōhai.


    Antônio de Pádua Moreira de Souza

    5º dan pela International Aikidō Federation (IAF)

    Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikidō (ACAI)

  • Aikido e defesa pessoal – por Pádua Sensei

    O Aikido é uma arte marcial de origem japonesa. Como o conteúdo das artes marciais gira em torno da idéia de luta, defesa pessoal, ou esporte competitivo, cabe aqui uma série de explicações.

    O termo “marcial“, no Ocidente, nos remete à guerra. Marte é o deus grego. Mesmo na astrologia, o planeta Marte é o “Senhor da Guerra”. Ele está associado com a nossa natureza animal, nossos desejos, impulsos sexuais. Mostra força, de trabalho, de luta, a construção, e ao mesmo tempo, a morte. Domina o ferro e o aço, as armas, associa-se aos ferimentos, à violência. Marte no horóscopo diz-nos onde colocamos mais energia. É natural, portanto, que as atividades que envolvam lutas sejam chamadas de artes marciais. A maioria delas está ligada ao esporte, cuja imagem, questionavelmente, pretende-se dissociar da guerra. Nós sabemos que ao mesmo tempo que Marte também rege as ferramentas, com as quais podemos montar e desmontar, construir e destruir.

    As pessoas são, de fato, instrumentos de suas próprias vidas. Não têm qualidades ou defeitos de forma forma absoluta, mas sim, características que se mainifestam positivas ou negativas conforme as circunstâncias. Entender-se como tal, trabalhar suas próprias limitações, explorar suas capacidades, compreender e aceitar tais características justificaria qualquer esforço por parte daquele que busca bem-estar, naturalidade em suas ações, um estado de maior integração entre si e os outros.

    O termo “Budo“, que virou arte marcial,se traduzido ao pé da letra do japonês para o esperanto, se tornaria “o caminho da guerra”. Mas a escrita japonesa, de origem chinesa, usa caracteres que expressam um conjunto de valores, o que permite diferentes leituras e interpretações. “Do“, por exemplo, pode significar rua, estrada, filosofia de vida, ou uma linha de conduta. Traduções diretas do “kanji” podem implicar erro de interpretação. As armas estão também ligadas à idéia de proteção, não necessariamente destruição. A guerra à serviço da paz. Armas para a manutenção da paz.

    Na luta esportiva existem regras. O treinamento se dá dentro de uma gama limitada de ação. Quebrar as regras significa perder pontos. Os atletas são separados por categorias como grau, peso, idade, e assim por diante. O objetivo é superar o outro, ser campeão. Normalmente se treina para uma data específica, um evento, para enfrentar alguma adversário conhecido e previamente estudado. Diferentemente, no Aikido não há competição. O treinamentodo é para todos os momentos.

    No Japão feudal, o samurai ocupava uma posição de destaque na sociedade. Não era um simples soldado. Sua formação e educação eram muito elevados. Sua instrução era iniciada quando criança, e seguia ao longo de toda sua vida. Sua função estava diretamente ligada à idéia de proteger os interesses do palácio e de seu mestre. Não treinava para uma luta específica, mas sim, para estar cada vez mais preparado. Meia hora de negligência poderia significar um atraso importante frente aos seus inimigos potenciais, poderia valer sua vida ou a vida de seu mestre.

    O fundador do Aikido (Morihei Ueshiba) herdou, dentro de um processo cultural, o espírito do Budo. Ele dedicou-se ao estudo de muitas escolas marciais, experimentando os seus métodos na prática, uma vez que participou de muitas batalhas, incluindo a guerra da Manchúria. Depois de alcançar um nível técnico muito alto, procurou elevar os seus conhecimentos na área da espiritualidade. Entendeu que o verdadeiro Budo deve ser direcionado para a proteção de todas as coisas.

    Raramente nos deparamos com ataques físicos. No entanto, ataques de ordem moral ou social são muito frequentes. Quase todo dia encontramos problemas no trabalho, na família, dificuldades emocionais, sentimentais, e assim por diante. Saber “defesa pessoal” significa muito mais do que desenvolver um conjunto de capacidades técnicas para o contato físico. Significa saber defender os seus próprios interesses. Assim, o conceito de “arte marcial” pode se aproximar de “arte da vida”, e o treinamento cotidiano transformar-se em filozofia de vida: “DO”.

    Definir uma linha de trabalho implica explicar seus princípios e definir o seus propósitos. O Aikido só pode ser vivido de fato, se essas coisas forem bem entendidas e assimiladas. Compreender algo intelectualmente é uma parte. Incutir um conceito e torná-lo automático requer muita prática e determinação. Assim, podemos dizer que a busca do aikidoista não é só o desenvolvimento do movimento correto, mas da atitude certa: a postura. E, ao mesmo tempo, a prática de tais movimentos será instrumento de aprendizagem e de manutenção desta mesma postura, entendida como uma atitude, não apenas como algo físico, estético, externo, mas também interno, um estado de espírito, a integração com o ambiente a ser expressa pela unidade. A capacidade de agir, de se deslocar dentro desta postura, seria o segundo nível. Ao contrário do que muitos pensam, uma a escola marcial se estuda através de sua postura, não de suas técnicas.

    Atingir objetivos para o Aikido implica maleabilidade de meios. O confronto é sempre uma forma difícil, mas há muitas outras maneiras. Quando andamos pela cidade de carro, é preciso parar no sinal vermelho, desviar de vários obstáculos, e por causa de uma rua “contra-mão”, muitas vezes vamos na direção oposta ao lugar que queremos ir. Olhando para o mapa das ruas, vemos que damos muitas voltas para chegar ao nosso objetivo. O caminho mais curto nem sempre está disponível. Pode também não ser o mais seguro. Escolher o caminho certo depende também de avaliar as circunstâncias do momento. A melhor maneira de se chegar a algum lugar nem sempre é a mesma.

    O Aikido é uma trabalho que tem como objetivo desenvolver no praticante certa mentalidade. A parte técnica realmente serve como um instrumento para a realização de um elevado grau de autoconhecimento e conscientização. O benefício real do trabalho é o desenvolvimento pessoal, a melhoria da percepção, a integração com o meio ambiente, a manutenção da saúde física, mental e emocional. A capacitação para a defesa pessoal é um subproduto do trabalho. A busca é, mais profundamente, por um ser humano melhor, consequentemente por uma sociedade melhor.


    Antônio de Pádua Moreira de Souza

    5º dan pela International Aikido Federation (IAF)

    Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikido (ACAI)

  • Mokuso: silenciar o pensamento – por Pádua Sensei

    No aikido, o treino começa com uma reverência em direção ao kamidana. Senta-se em seiza, as mãos são levadas à frente do rosto com os braços semi-estendidos. Duas palmas são executadas. Posteriormente mais duas palmas. Porém, há um pequeno período de silêncio entre as duas palmas iniciais e as duas posteriores. É aí que reside o “mokuso”. A movimentação da realidade da vida diária vem nas respirações e na agitação dos alunos até que se sentem em seiza e aquietem-se. Quase que um momento de meditação, o mokuso marca uma transição. Serve para silenciar preocupações, desejos, preconceitos, enfim, perturbações que nos acompanham frequentemente no dia a dia. Não se trata de um processo de alienação ou de desligamento. Ao contrário, é no dojo que a realidade pode ser entendida com uma consciência diferenciada. Ao final do treino, repete-se o procedimento. Faça o melhor durante a sua prática: mesmo cometendo erros, terá nova chance em outro treino, em outro dia. Nosso universo é feito de mudanças. Entenda as transições e aproveite as oportunidades.


    Antônio de Pádua Moreira de Souza

    5º dan pela International Aikido Federation (IAF)

    Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikido (ACAI)

  • Música e aikido – por Pádua Sensei

    Discorrer sobre relações entre diferentes assuntos é uma forma de sistematizar a construção de um conhecimento e de tornar mais abrangente nossa visão de mundo. De fato, todas as coisas estão relacionadas em maior ou menor grau, direta ou indiretamente. A consciência desta realidade deriva de nossa capacidade perceptiva e cognitiva.

    Para nós as coisas parecem ser como as vemos. Parecem. Somos capazes de perceber somente uma parte do espectro luminoso que nos cerca. Assim também é com os sons. Nossos ouvidos captam freqüências e nosso cérebro interpreta estes impulsos elétricos nos causando sensações. Somos capazes de perceber freqüências baixas entre 16 e 20 Hz. As mais altas atingem 25.000 Hz. A partir destes limites, parecem que não existem. No entanto, outros animais como baleias e morcegos são capazes de ouvir diferentes faixas freqüenciais.

    Tudo produz som, já que as moléculas vibram e emitem freqüências. Trata-se de um fenômeno natural. A música, por sua vez, é resultado de um trabalho humano, transformando o som em ciência e arte. Seus princípios fundamentais são ritmo, tonalidade, dinâmica e timbre.

    Ao se ouvir música nossos sentidos despertam. Sons graves atuam nas vísceras e nos conectam com o chão, com instintos mais básicos. Os agudos, por sua vez, são mais mentais, intelectuais. Determinadas músicas incitam nosso corpo a movimentos específicos. O impulso para a dança para expressar emoções é algo tão antigo quanto se possa imaginar. O ritmo aliado ao gesto certamente foi uma das primeiras formas de comunicação humana. Ainda que a dança possa ocorrer sem acompanhamento musical, o movimento em si sugere música e vice versa.

    A emissão e propagação do som seguem conceitos físicos. A energia se desloca da maior concentração para a menor. Diferença gera movimento. O aikido é uma linguagem na qual fluxos de diferentes direções, sentidos e intensidades são lidos e redirecionados para um determinado fim, trabalhando o movimento também como ciência e arte.

    Música e aikido têm o movimento como um elemento comum. A forma de se desenvolver nestas artes também é muito parecida. Como linguagens que são, pedem atenção. Ordenar fluxos depende da compreensão e consciência de suas qualidades, assim como ordenar as ondas sonoras. Talvez uma definição para barulho ou ruído seja um som não bem vindo. O que diferencia um barulho de uma nota musical é a regularidade da freqüência emitida. Música é resultado de uma organização de freqüências. São ondas em movimento ordenadas e direcionadas para um determinado resultado.

    Ao estudarmos um instrumento musical, nos deparamos com questões técnicas. Assim como no aikido, a postura adequada é fundamental. Antes de aprendermos a falar é preciso ouvir. No desenvolvimento de ambas as artes usar a percepção para assimilar os conceitos das linguagens é condição “sine qua non”. É muito importante treinar lentamente. Assim, dá tempo para o cérebro assimilar os detalhes. A repetição traz familiaridade com o movimento e a velocidade vem naturalmente.

    É interessante imaginar quão grande pode ser o envolvimento da mente/corpo com atividades deste tipo. Pensamentos e sentimentos também geram freqüências e se relacionam com freqüências externas. Quando o ser está sintonizado com a música ou com os movimentos do aikido ocorre uma adequação frequencial. Como quando duas cordas de um violão afinadas na mesma nota vibram juntas, ainda que só uma delas tenha sido tocada. A unificação gerada por esta sintonia traz um grande bem estar e eleva o estado de espírito. Claro que o efeito pode ser nocivo, dependendo de como estas linguagens estão sendo praticadas. Todo poder pode ser usado de forma construtiva ou destrutiva.

    Tanto a música como o aikido têm aspectos terapêuticos. Na fisioterapia, fala-se que movimento cura movimento. Ou seja, a prática de um movimento errado gera lesão. O movimento corretamente orientado a recupera. A natureza gera padrões. Música e aikido são formas construídas a partir desta matéria prima. Não são criações artificiais, mas formas inteligentes de se lidar com forças naturais possibilitando entre outras coisas melhor estilo de vida e manutenção de saúde integral.

    Lamentavelmente, a indústria se apossou da música colocando-a na posição de um produto a ser consumido. A tecnologia a este serviço a mecanizou com os aparelhos de som e gravações. O interesse em atingir as massas a nivela constantemente por baixo. Seus aspectos terapêuticos estão quase que totalmente esquecidos, assim com seus valores de integração social e de formação pessoal. De certa forma, o aikido também segue esta tendência. É de suma importância a compreensão de seus verdadeiros princípios e propósitos para que este tesouro não se perca. Muito valioso é o esforço daqueles que prezam pela boa prática do aikido e da música de qualidade. Ainda que sustentando um trabalho discreto, mas de grande responsabilidade, tornam-se os guardiões de recursos nobres que são verdadeiros patrimônios da humanidade.


    Antônio de Pádua Moreira de Souza

    5º dan pela International Aikidō Federation (IAF)

    Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikidō (ACAI)

  • Entrevista de Pádua Sensei para a TV UFSC

    Entrevista da TV UFSC com Pádua Sensei
    Entrevista da TV UFSC com Pádua Sensei

    A TV UFSC realizou uma entrevista com Pádua Sensei com cerca de uma hora de duração. Muitos conceitos são abordados, em especial o propósito da prática do Aikidō e o espírito do Budō. Aproveite!

  • Uke e Nage como “Tao” – por Pádua Sensei

    Aikido Lingvo
    Aikidō Lingvo é um dos princípios trabalhados por Pádua Sensei, que em esperanto significa “Aikidō como linguagem”

    Apresentar um trabalho de vivência em Aikidō implica exibir não somente as bases técnicas pelas quais ele se processa, mas também discorrer sobre suas propriedades. Muito do que normalmente é apresentado gira em torno de diversidade técnica, enfatizando a eficiência de chaves e projeções. É preciso incitar reflexões sobre a prática desta atividade, bem como passear pelos significados intrínsecos que regem a relação uke-nage.

    Muitos acreditam que com uma boa postura, um bom movimento e com boa técnica se consegue uma alta performance em Aikidō. Postura e movimento são pré-requisitos para a técnica. Tais elementos são desenvolvidos através dos katas. Todavia, uma arte marcial se define por seus princípios e propostas. Ter a capacidade de impor o movimento ao outro foge do âmbito desta arte, que tem na não resistência e no trabalho construtivo os alicerces de sua obra.

    O Aikidō tem na prática marcial um instrumento para a abordagem de conteúdos muito importantes para a lapidação do ser humano, bem como para a manutenção de sua saúde. Uma destas questões diz respeito à relação que os praticantes trabalham entre si quando alternam suas posições entre uke e nage.

    É fundamental treinar em função do outro. É preciso ler suas dificuldades, avaliar seu peso, dimensionar sua extensão de movimento, sua fluência. Abrir sua sensibilidade em relação ao outro é sair de si mesmo, condição “sine qua non” para o auto desenvolvimento. Aquele que segue através da aquisição de geometrias físicas, de condicionamento e fortalecimento do corpo, desenvolvendo técnicas para impor a sua vontade, não está praticando Aikidō. Ki é fluxo e implica movimento. Harmonizar esta energia é compor com ela, o que leva à necessidade de constante adaptação, leitura, integração e contextualização. Ser uma máquina eficiente de aplicar chaves e projeções não diz respeito ao que preconizou seu fundador Morihei Ueshiba, ō-Sensei. Tampouco visa o Aikidō formar lutadores. A etimologia da palavra “técnica” se refere à melhor maneira de se fazer algo. Para nós, o Aikidō é uma técnica de lapidação pessoal e social. Desenvolver-se, por sua vez, significa ir para uma posição ou condição melhor. Aquele que reside em si mesmo cria um grande obstáculo para sua própria evolução. O enfoque para uma boa prática deve estar no conjunto uke-nage. Normalmente se presta muita atenção em como aplicar uma técnica, mas pouca em como recebê-la. Os iniciantes querem ser “bons” e acabam se privando de conhecer o verdadeiro Aikidō, pois concentram-se no trabalho do nage. Respeitar seu colega de prática e protegê-lo, cuidar de seu progresso trabalhando suas limitações fazem parte de uma boa postura em treino. O fundador falava muito em amor, e amor não é sentimento, é comportamento. Como nage não se deve subjugar o outro. Deve-se absorver seu fluxo e redirecioná-lo dissolvendo conflitos potenciais.

    uke, por sua vez, não deve se tornar nulo e simplesmente aguardar a condução do nage. É importante preservar a intenção inicial e fazer a manutenção de posturas para se harmonizar dentro do contexto e proteger o corpo de lesões.

    Assim como no símbolo do Tao, uke e nage devem se entrosar dentro de uma dinâmica. A essência yin nasce no ambiente yang, e vice-versa. Nage deve ser sensível e receptivo em posição de re-condutor de uma intenção, e uke por sua vez, ativo e atento à forma de compor com seu parceiro. Deste modo, reside a essência uke no nage, e a essência nage no uke.


    Antônio de Pádua Moreira de Souza

    5º dan pela International Aikidō Federation (IAF)

    Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikidō (ACAI)

  • Aikidō: considerações gerais – por Pádua Sensei

    Praticar uma arte marcial é muito mais que frequentar uma academia. É se aprofundar nos conteúdos mais importantes de um caminho, na busca de instrumentos de autoconhecimento e lapidação pessoal.

    Após muito trabalho e dedicação, o Grão-mestre Morihei Ueshiba concebeu o Aikido. Uma arte sofisticada em suas técnicas, etiquetas, e associações intelectuais. Uma atividade desenvolvida para possibilitar ao praticante seu crescimento pessoal, trazendo consequentemente, benefícios para toda sociedade.

    É comum associar a expressão “arte marcial” com a ideia de luta. Luta pressupõe um contra o outro. Para quem tem um mínimo de entendimento do Aikido, já está bem claro que treinamos uns com os outros e não contra os outros.

    Inicialmente, no Japão, não havia o caráter desportivo nas artes marciais. As práticas tinham um propósito muito claro: a guerra. Com o avanço das tecnologias bélicas, o combate corpo a corpo foi perdendo importância. Em contrapartida, os aspectos filosóficos, a busca por desenvolvimento pessoal, a preocupação com a saúde física, mental e emocional foram ganhando força e preservando aqueles conceitos implícitos nas escolas de artes marciais tradicionais.

    Principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial as artes marciais se dividiram em três grupos: Luta esportiva, Defesa Pessoal e Artes Marciais Filosóficas.

    O maior deles, crescido em ambiente de interesses capitalistas, se classifica como o das lutas esportivas, apoiado pela imagem do grande campeão, do super herói, alimentado pela mídia, criando a cultura do esporte show.

    O segundo grupo se forma principalmente pela sensação de vulnerabilidade frente aos altos índices de violência urbana (assaltos, agressões, violência de gênero, etc).

    Vale lembrar que defesa pessoal não é só saber bater. Evitar o conflito, prever os riscos e agir com calma e consciência são pontos fundamentais.

    Ainda que oriundas de artes tradicionais, alguns grupos valorizam mais o desempenho técnico, a eficiência combativa e o lucro, deixando aspectos filosóficos em segundo plano.

    Todas as vertentes das artes marciais têm aspectos positivos. Assim como riscos inerentes a elas. Há um enorme abismo entre a teoria e a prática, e o que se vivencia na academia pode estar muito distante da realidade, gerando a falsa impressão de que se pode enfrentar com facilidade algumas situações de risco nas ruas, em confronto com indivíduos capacitados pela prática da violência rotineira, como sobreviventes de ambientes verdadeiramente hostis.

    O aikido se encontra dentro do terceiro grupo, aquele voltado para aspectos filosóficos, ainda que não abrindo mão do desenvolvimento de uma postura defensiva em um sentido mais amplo. Significa que defesa pessoal não é somente resolver com sucesso uma agressão física. Agressões surgem de diferentes formas. Os ataques físicos são na verdade muito mais raros do que os que surgem na convivência social, profissional e até mesmo familiar.

    Tendo sido um grande artista marcial, combatente em duas guerras como soldado japonês, o fundador do aikido entendeu, em determinado momento, que seu conhecimento poderia ser direcionado para algo positivo e não destrutivo.

    Quando vemos um martelo, nos vem a ideia de uma ferramenta de trabalho, de construção, de algo que possa servir à favor de alguém ou da sociedade. Entretanto, é possível imaginar que tal objeto possa ser usado como uma arma, bem eficiente, diga-se de passagem, destruindo e desmontando, e até mesmo em um combate, com um enorme potencial letal.

    Invertendo o mecanismo de raciocínio, uma arte marcial nos traz a ideia de luta, de adversários, um superando outro, subjugando, impondo sua vontade. No entanto, podemos pensar nela como uma ferramenta de trabalho, de construção, que traga benefício pessoal e social.

    Os conceitos do aikido são aplicáveis em diferentes áreas das atividades humanas. Relaciona-se com a ideia de harmonia, comunicação não violenta, equilíbrio, disciplina interna e a transformação de conflito em cooperação, ganhando espaço até mesmo em prateleiras de administração de empresas nas livrarias.

    Na área da psicologia, o aikido enfatiza o reconhecimento e o controle das emoções diante do conflito. Ensina como não reagir de forma agressiva, mesmo sob pressão, cultivando a calma e o autocontrole. Não alimenta a ideia de vencer o outro, e sim suas próprias dificuldades se tornando melhor a cada momento. Promove o respeito, a cooperação e a empatia.

    Quando se trata de gestão de pessoas no mundo dos negócios, o aikido ajuda na formação de liderança não autoritária, harmonizando interesses, desarmando tensões, desenvolvendo a habilidade de agir sem impulsividade e na medida certa.

    Na área da saúde, vem o conceito de integralidade através da união corpo-mente-espírito.

    A ideia de neutralizar a agressão sem destruir o outro inspira princípios éticos universais. Tornar-se um indivíduo melhor é colaborar com a construção de uma sociedade melhor. O Aikido pode ser visto como um modelo para relações mais conscientes e respeitosas. O grande mestre Morihei Ueshiba nos mostrou como transformar uma ferramenta originalmente destrutiva em algo construtivo. Domo arigato gozaimashita!


    Antônio de Pádua Moreira de Souza

    5º dan pela International Aikidō Federation (IAF)

    Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikidō (ACAI)

  • Princípios básicos – por Shihan Reishin Kawai

    Reishin Kawai Shihan
    Reishin Kawai Shihan

    Nos tempos atuais diante de tantas adversidades, cada vez mais sentimos a necessidade de encontrar elementos para nosso aperfeiçoamento físico e principalmente espiritual, através de uma fusão corpo e mente.

    O Aikidō tem como princípio básico não vencer o oponente, mas a si próprio. Nosso grande mestre, Morihei Ueshiba, traduz o Aikidō em uma única palavra, wagatsu, onde a sua tradução significa a supervisão de si mesmo.

    A palavra Aikidō, em sua essência, significa:

                   AI    –   Harmonia com o Universo
                   KI    –   Energia vital
                     –   Caminho do aperfeiçoamento humano

    A partir do momento que entendemos a relação que temos com o Universo, nos tornamos mais seguros e confiantes, motivo pelo qual o Aikidō é muito utilizado como defesa pessoal.

    Segundo o grão mestre Morihei Usehiba, seguramente uma dentre 200 pessoas praticantes irá entender o sentido de utilizar a energia e não a força.

    A prática do Aikidō se faz de forma gradativa, obedecendo as limitações de cada praticante e considerando idade, condições físicas e motoras.

    É importante no nosso cotidiano não ter medo, e o Aikidō proporciona tal condição de confiança.

    O Aikidō é uma arte de vida, jamais objetivando machucar ou matar pessoas.

    Atualmente, com a predominância do stress, o Aikidō se propõe harmonizar e integrar corpo e alma, o que é também traduzido pela palavra “rei-niku-itai” que significa, ser feliz é ter saúde no corpo.

    Praticando o Aikidō, vamos acumulando muita energia. Consequentemente, adquirimos confiança e respeito aos semelhantes. Acima de tudo, nos tornamos pessoas alegres e sadias, contagiando também aqueles que estão no nosso lado.

    Alguns pensamentos e posturas são importantes para o nosso dia a dia, entre eles a postura de auto crítica, pois através de nossos pensamentos e atos criamos o universo ao nosso redor. Uma postura muito importante é de não criticarmos nem falarmos mal de nosso próximo. A crítica maléfica esconde a fraqueza de si próprio. Isto é como o velho ditado “o cão que late não morde”. Quando falamos mal de alguém, trazemos desprezo sobre nós mesmos e fazemos com que o universo não nos auxilie.


    [Discurso realizado em 2003 por Kawai Shihan] Neste ano de 2003, completaremos 40 anos de Aikidō no Brasil, cuja arte tivemos a felicidade de introduzir neste país em 1963 com a fundação da Associação Central de Aikidō, introdução realizada com a devida autorização de nosso eterno grão mestre Morihei Ueshiba.

    Hoje, com muito orgulho, estão associadas a nós, da Confederação Sul-Americada na Arte de Aikidō, 93 (noventa e três) academias, espalhadas pelo Brasil e América do Sul.

  • Fluxo de Ki – por Kisshomaru Ueshiba

    Ki
    Kanji para representar o Ki

    Ki é um dos difíceis conceitos do pensamento oriental, o qual tem contribuído para o alto padrão da filosofia que nós na Ásia temos herdado de nosso passado ancestral.

    Nossos ancestrais acreditavam que ki era a própria vida. Este é o caminho para concentrar a força da vida ou o poder do espírito. Mesmo nos dias de hoje, nós usamos muitas palavras que refletem esta herança. Por exemplo, nós sentimos que nada pode ser realizado por uma pessoa que tiver o seu ki caído, desespiritualizado, ou se seu ki definha, estar em baixo espírito. A doença em japonês pode ser literalmente lida como doença do ki e é assim que está ligada em nossas mentes com a morte.

    Quando é possível ativar livremente e exibir o máximo do ki que qualquer ser humano possui, este leva a um inesperado e forte poder. Ele também permite viver mais livre e vigorosamente a vida. Aqui repousa o significado da existência do Aikidō. Quando corretamente treinado, uma pessoa torna-se hábil para manifestar seu ki livremente.

    A fim de dominar este sentimento, o ki, que é o conteúdo do poder da respiração humana, e o ki original, que é onipresente no universo, devem estar em concordância. A característica que distingue os movimentos do Aikidō é que eles harmonizam-se com a ordem do universo e ajustam-se espontaneamente a suas mundanças. Por isso, em Aikidō um treino com o objetivo de conceber a unificação do ki individual com o ki do universo é feito pela alimentação kokyuryoku, o poder da respiração. Quando este poder da respiração é expandido para todas as partes do corpo e enviado para fora diretamente por ambas as facas das mãos, as técnicas do Aikidō tornam-se ativas e mostram seu completo valor. Isto leva uma pessoa a tornar-se una com a totalidade da natureza.

    É impossível executar a forma da Mãe Natureza em si mesmo se seus movimentos estão aprisionados dentro do ego. O oponente deve ser guiado e feito uno com seus movimentos, enquanto você permanece no estado de espírito que é freqüentemente chamado o domínio do não eu. É aqui que se sente o fluxo vivo do ki. Quando alguém está habilitado a dominar as técnicas Aiki de tal modo que ela fica livre e fluente em seu comando, o adversário poderá ser movido para qualquer lado que se queira por meio do fluxo vivo de ki. Ele terá aprendido a respirar o fluxo de ki do oponente dentro da sua própria respiração e poderá controlá-lo através desta unidade antes do que pela oposição.

    Este uso correto do Fluxo do Ki pode ser somente dominado através do treinamento constante do Aikidō e pelo uso correto da força da respiração. Assim nós podemos definir o fluxo de ki como sendo o estado no qual a totalidade da força vital que está distribuída para qualquer se humano está sendo demonstrada na mais completa emanação possível.


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