O Aikido é uma arte marcial de origem japonesa. Como o conteúdo das artes marciais gira em torno da idéia de luta, defesa pessoal, ou esporte competitivo, cabe aqui uma série de explicações.
O termo “marcial“, no Ocidente, nos remete à guerra. Marte é o deus grego. Mesmo na astrologia, o planeta Marte é o “Senhor da Guerra”. Ele está associado com a nossa natureza animal, nossos desejos, impulsos sexuais. Mostra força, de trabalho, de luta, a construção, e ao mesmo tempo, a morte. Domina o ferro e o aço, as armas, associa-se aos ferimentos, à violência. Marte no horóscopo diz-nos onde colocamos mais energia. É natural, portanto, que as atividades que envolvam lutas sejam chamadas de artes marciais. A maioria delas está ligada ao esporte, cuja imagem, questionavelmente, pretende-se dissociar da guerra. Nós sabemos que ao mesmo tempo que Marte também rege as ferramentas, com as quais podemos montar e desmontar, construir e destruir.
As pessoas são, de fato, instrumentos de suas próprias vidas. Não têm qualidades ou defeitos de forma forma absoluta, mas sim, características que se mainifestam positivas ou negativas conforme as circunstâncias. Entender-se como tal, trabalhar suas próprias limitações, explorar suas capacidades, compreender e aceitar tais características justificaria qualquer esforço por parte daquele que busca bem-estar, naturalidade em suas ações, um estado de maior integração entre si e os outros.
O termo “Budo“, que virou arte marcial,se traduzido ao pé da letra do japonês para o esperanto, se tornaria “o caminho da guerra”. Mas a escrita japonesa, de origem chinesa, usa caracteres que expressam um conjunto de valores, o que permite diferentes leituras e interpretações. “Do“, por exemplo, pode significar rua, estrada, filosofia de vida, ou uma linha de conduta. Traduções diretas do “kanji” podem implicar erro de interpretação. As armas estão também ligadas à idéia de proteção, não necessariamente destruição. A guerra à serviço da paz. Armas para a manutenção da paz.
Na luta esportiva existem regras. O treinamento se dá dentro de uma gama limitada de ação. Quebrar as regras significa perder pontos. Os atletas são separados por categorias como grau, peso, idade, e assim por diante. O objetivo é superar o outro, ser campeão. Normalmente se treina para uma data específica, um evento, para enfrentar alguma adversário conhecido e previamente estudado. Diferentemente, no Aikido não há competição. O treinamentodo é para todos os momentos.
No Japão feudal, o samurai ocupava uma posição de destaque na sociedade. Não era um simples soldado. Sua formação e educação eram muito elevados. Sua instrução era iniciada quando criança, e seguia ao longo de toda sua vida. Sua função estava diretamente ligada à idéia de proteger os interesses do palácio e de seu mestre. Não treinava para uma luta específica, mas sim, para estar cada vez mais preparado. Meia hora de negligência poderia significar um atraso importante frente aos seus inimigos potenciais, poderia valer sua vida ou a vida de seu mestre.
O fundador do Aikido (Morihei Ueshiba) herdou, dentro de um processo cultural, o espírito do Budo. Ele dedicou-se ao estudo de muitas escolas marciais, experimentando os seus métodos na prática, uma vez que participou de muitas batalhas, incluindo a guerra da Manchúria. Depois de alcançar um nível técnico muito alto, procurou elevar os seus conhecimentos na área da espiritualidade. Entendeu que o verdadeiro Budo deve ser direcionado para a proteção de todas as coisas.
Raramente nos deparamos com ataques físicos. No entanto, ataques de ordem moral ou social são muito frequentes. Quase todo dia encontramos problemas no trabalho, na família, dificuldades emocionais, sentimentais, e assim por diante. Saber “defesa pessoal” significa muito mais do que desenvolver um conjunto de capacidades técnicas para o contato físico. Significa saber defender os seus próprios interesses. Assim, o conceito de “arte marcial” pode se aproximar de “arte da vida”, e o treinamento cotidiano transformar-se em filozofia de vida: “DO”.
Definir uma linha de trabalho implica explicar seus princípios e definir o seus propósitos. O Aikido só pode ser vivido de fato, se essas coisas forem bem entendidas e assimiladas. Compreender algo intelectualmente é uma parte. Incutir um conceito e torná-lo automático requer muita prática e determinação. Assim, podemos dizer que a busca do aikidoista não é só o desenvolvimento do movimento correto, mas da atitude certa: a postura. E, ao mesmo tempo, a prática de tais movimentos será instrumento de aprendizagem e de manutenção desta mesma postura, entendida como uma atitude, não apenas como algo físico, estético, externo, mas também interno, um estado de espírito, a integração com o ambiente a ser expressa pela unidade. A capacidade de agir, de se deslocar dentro desta postura, seria o segundo nível. Ao contrário do que muitos pensam, uma a escola marcial se estuda através de sua postura, não de suas técnicas.
Atingir objetivos para o Aikido implica maleabilidade de meios. O confronto é sempre uma forma difícil, mas há muitas outras maneiras. Quando andamos pela cidade de carro, é preciso parar no sinal vermelho, desviar de vários obstáculos, e por causa de uma rua “contra-mão”, muitas vezes vamos na direção oposta ao lugar que queremos ir. Olhando para o mapa das ruas, vemos que damos muitas voltas para chegar ao nosso objetivo. O caminho mais curto nem sempre está disponível. Pode também não ser o mais seguro. Escolher o caminho certo depende também de avaliar as circunstâncias do momento. A melhor maneira de se chegar a algum lugar nem sempre é a mesma.
O Aikido é uma trabalho que tem como objetivo desenvolver no praticante certa mentalidade. A parte técnica realmente serve como um instrumento para a realização de um elevado grau de autoconhecimento e conscientização. O benefício real do trabalho é o desenvolvimento pessoal, a melhoria da percepção, a integração com o meio ambiente, a manutenção da saúde física, mental e emocional. A capacitação para a defesa pessoal é um subproduto do trabalho. A busca é, mais profundamente, por um ser humano melhor, consequentemente por uma sociedade melhor.
Antônio de Pádua Moreira de Souza
5º dan pela International Aikido Federation (IAF)
Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikido (ACAI)

