Praticar uma arte marcial é muito mais que frequentar uma academia. É se aprofundar nos conteúdos mais importantes de um caminho, na busca de instrumentos de autoconhecimento e lapidação pessoal.
Após muito trabalho e dedicação, o Grão-mestre Morihei Ueshiba concebeu o Aikido. Uma arte sofisticada em suas técnicas, etiquetas, e associações intelectuais. Uma atividade desenvolvida para possibilitar ao praticante seu crescimento pessoal, trazendo consequentemente, benefícios para toda sociedade.
É comum associar a expressão “arte marcial” com a ideia de luta. Luta pressupõe um contra o outro. Para quem tem um mínimo de entendimento do Aikido, já está bem claro que treinamos uns com os outros e não contra os outros.
Inicialmente, no Japão, não havia o caráter desportivo nas artes marciais. As práticas tinham um propósito muito claro: a guerra. Com o avanço das tecnologias bélicas, o combate corpo a corpo foi perdendo importância. Em contrapartida, os aspectos filosóficos, a busca por desenvolvimento pessoal, a preocupação com a saúde física, mental e emocional foram ganhando força e preservando aqueles conceitos implícitos nas escolas de artes marciais tradicionais.
Principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial as artes marciais se dividiram em três grupos: Luta esportiva, Defesa Pessoal e Artes Marciais Filosóficas.
O maior deles, crescido em ambiente de interesses capitalistas, se classifica como o das lutas esportivas, apoiado pela imagem do grande campeão, do super herói, alimentado pela mídia, criando a cultura do esporte show.
O segundo grupo se forma principalmente pela sensação de vulnerabilidade frente aos altos índices de violência urbana (assaltos, agressões, violência de gênero, etc).
Vale lembrar que defesa pessoal não é só saber bater. Evitar o conflito, prever os riscos e agir com calma e consciência são pontos fundamentais.
Ainda que oriundas de artes tradicionais, alguns grupos valorizam mais o desempenho técnico, a eficiência combativa e o lucro, deixando aspectos filosóficos em segundo plano.
Todas as vertentes das artes marciais têm aspectos positivos. Assim como riscos inerentes a elas. Há um enorme abismo entre a teoria e a prática, e o que se vivencia na academia pode estar muito distante da realidade, gerando a falsa impressão de que se pode enfrentar com facilidade algumas situações de risco nas ruas, em confronto com indivíduos capacitados pela prática da violência rotineira, como sobreviventes de ambientes verdadeiramente hostis.
O aikido se encontra dentro do terceiro grupo, aquele voltado para aspectos filosóficos, ainda que não abrindo mão do desenvolvimento de uma postura defensiva em um sentido mais amplo. Significa que defesa pessoal não é somente resolver com sucesso uma agressão física. Agressões surgem de diferentes formas. Os ataques físicos são na verdade muito mais raros do que os que surgem na convivência social, profissional e até mesmo familiar.
Tendo sido um grande artista marcial, combatente em duas guerras como soldado japonês, o fundador do aikido entendeu, em determinado momento, que seu conhecimento poderia ser direcionado para algo positivo e não destrutivo.
Quando vemos um martelo, nos vem a ideia de uma ferramenta de trabalho, de construção, de algo que possa servir à favor de alguém ou da sociedade. Entretanto, é possível imaginar que tal objeto possa ser usado como uma arma, bem eficiente, diga-se de passagem, destruindo e desmontando, e até mesmo em um combate, com um enorme potencial letal.
Invertendo o mecanismo de raciocínio, uma arte marcial nos traz a ideia de luta, de adversários, um superando outro, subjugando, impondo sua vontade. No entanto, podemos pensar nela como uma ferramenta de trabalho, de construção, que traga benefício pessoal e social.
Os conceitos do aikido são aplicáveis em diferentes áreas das atividades humanas. Relaciona-se com a ideia de harmonia, comunicação não violenta, equilíbrio, disciplina interna e a transformação de conflito em cooperação, ganhando espaço até mesmo em prateleiras de administração de empresas nas livrarias.
Na área da psicologia, o aikido enfatiza o reconhecimento e o controle das emoções diante do conflito. Ensina como não reagir de forma agressiva, mesmo sob pressão, cultivando a calma e o autocontrole. Não alimenta a ideia de vencer o outro, e sim suas próprias dificuldades se tornando melhor a cada momento. Promove o respeito, a cooperação e a empatia.
Quando se trata de gestão de pessoas no mundo dos negócios, o aikido ajuda na formação de liderança não autoritária, harmonizando interesses, desarmando tensões, desenvolvendo a habilidade de agir sem impulsividade e na medida certa.
Na área da saúde, vem o conceito de integralidade através da união corpo-mente-espírito.
A ideia de neutralizar a agressão sem destruir o outro inspira princípios éticos universais. Tornar-se um indivíduo melhor é colaborar com a construção de uma sociedade melhor. O Aikido pode ser visto como um modelo para relações mais conscientes e respeitosas. O grande mestre Morihei Ueshiba nos mostrou como transformar uma ferramenta originalmente destrutiva em algo construtivo. Domo arigato gozaimashita!
Antônio de Pádua Moreira de Souza
5º dan pela International Aikidō Federation (IAF)
Presidente e Fundador da Associação Catarinense de Aikidō (ACAI)

