Observar apresentações de grandes mestres de aikido sempre me levou a reflexões a respeito da importância do “UKE”. Fiquei encantado com os acompanhantes do falecido Doshu Kishomaru Ueshiba, por ocasião de sua segunda visita a São Paulo, em 1990. Não só a técnica de quedas e assimilações de chaves, mas, sobretudo a concentração e a capacidade de leitura de intenções e conduções, que tornavam fácil e expressiva a sua movimentação, me impressionaram muito. Também o cuidado com o superior, respeito e atenção para com o mestre, demonstravam uma educação refinada, e um conhecimento profundo do significado de BUDO. Não era à toa que se tratava de faixas-pretas muito experientes e com alta graduação (Hori sensei e Osawa sensei – godan e rokudan respectivamente).
Considero o AIKIDO uma linguagem. Transmissor e receptor são igualmente importantes. UKE e NAGUE se completam, fazendo brotar toda a essência desta arte que através de movimento, dissolve conflitos gerenciando fluxo, harmonizando e unificando partes distintas.
Ainda hoje, muitos associam ARTES MARCIAIS à idéia de luta. No embate, um tenta vencer o outro através de variados recursos, de forma a fazer prevalecer a sua vontade. Visa neutralizar os recursos do outro, pela imposição.
Aikido é a arte da não-resistência. É preciso que se aprenda a lidar com a vontade do outro. Percebê-la e respeitá-la, pois não existe verdadeira harmonia através da dominação. Não há diálogo e crescimento quando uma idéia é imposta. Desta forma, NAGUE não é aquele que domina o oponente pelo fortalecimento de sua técnica, executando de modo absoluto um movimento que parta de sua vontade. Tampouco UKE guarda o significado daquele que se entrega à condução por inferioridade de condição, ou por ausência de vontade. A postura deve ser constantemente praticada pelo aikidoísta, tanto conduzindo como sendo conduzido. Existe sempre um pouco de UKE no NAGUE, e vice-versa. Assim como no símbolo do TAO, a essência yin nasce no ambiente yang, e a yang no ambiente yin.
Todos se preocupam em aprender as técnicas de condução. Parece que aprender AIKIDO é se capacitar tecnicamente para aplicar chaves e projeções em qualquer um, como se isso pudesse ser feito sempre da mesma forma. Nas aulas, há muito empenho em assimilar os movimentos que o instrutor mostra. Quase ninguém se preocupa em observar quem recebe a condução. Os conceitos “ganhar” e “perder” estão muito enraizados na nossa cultura. A idéia de ser visto projetando alguém numa demonstração é mais atraente que estar sendo projetado. Os exames de faixa avaliam o desempenho do candidato à promoção, através da execução dos KATAS na forma de NAGUE. No entanto, sabe-se que um bom UKE é fundamental para uma boa apresentação. Um iniciante, ainda sem boa postura e leitura de condução, estragaria o KATA de qualquer um. Por isso, os UKES são escolhidos a dedo pelos mestres nas apresentações.
UKE e NAGUE em treinamento são como pernas a caminhar, alternando-se e equilibrando-se dentro de um trabalho entrosado, de igual importância e com objetivo comum. Esmerar-se por conquistar boa performance como UKE demonstra real compreensão do AIKIDO, e garante o desenvolvimento da percepção e sensibilidade necessárias para a efetivação de seus princípios e propostas.


                                                                                                                 Antonio de Pádua Moreira
Colaboradores desta Seção