Para quem não sabe ou está chegando agora, existe um pessoa entre nós que julgamos ter sido muito importante na implantação do Aikido em Santa Catarina, em especial em Florianópolis: o nosso colega José Vitor Centeno Rodrigues. Nessa entrevista, José Vitor nos conta um pouco dessa história: ASB(ACAI SHINBUN): Zé Vitor, conte-nos como foram os primeiros contatos com o Aikido? Foi no início dos anos noventa. Eu já treinava outra arte marcial desde oitenta e um e costumava ler bastante sobre artes marciais em geral, revistas, livros, tudo. Então eu li uma reportagem na revista Combat Sport, que trazia o Aurélio Miguel na capa, trazendo a primeira medalha de ouro para o Brasil, no mundial de Judo. Nessa revista havia uma entrevista com o mestre Gozo Shioda, mestre do Yoshinkan. Era portanto uma entrevista sobre Aikido, com alguém que tinha sido deshi do Grão Mestre Ueshiba por quase dez anos. Essa entrevista foi marcante, contundente mesmo. Eu pensei: é isso aí que eu quero treinar. Não tinha nada a ver com técnica, por exemplo, mas com os conceitos filosóficos que o mestre Gozo deixava transparecer nessa reportagem. Nessa época, ele, que vinha ao Brasil, era o instrutor da polícia feminina de Tóquio, e contava já com quase oitenta anos de idade! Bem, foi assim. ASB: E como foram os primeiros contatos com o Pádua Sensei? Pois é, então eu sabendo que não existia Aikido em Santa Catarina, fiquei um pouco triste, mas continuava lendo revistas. Foi quando apareceu outra revista que trazia o Kawai Sensei na capa, aplicando um nikyo no Severino. Por essa revista eu descobri o endereço da Associação Central, em São Paulo, e tive a ousadia de escrever diretamente ao Kawai Sensei, uma carta. Pádua Sensei era, nessa ocasião, deshi do Kawai Sensei, e começamos a trocar alguma correspondência. ASB: A pouco tempo atrás, na sua casa, você contou-nos um episódio sobre o Pádua Sensei, que ele nunca lhe mostrava as técnicas de Aikido, insistia em falar do Ki. Você pode narrar esse episódio? Pouco tempo depois Pádua Sensei já se instalara em Florianópolis, cumprindo um programa antigo, dele mesmo e de Kawai Sensei, e ficamos bem amigos, nessa sua primeira fase de Florianópolis. Eu vivia perguntando sobre o Aikido, pois o que eu sabia era de fotos e revista, e mais nada. Acho que ele me cozinhou bastante nessa época, deixando-me sempre cada vez mais curioso. Comigo foi assim. Sei que com outros companheiros de Aikido foi diferente; quando perguntado, ele logo ia aplicando um nikyo ou um sankyo bem contundente e pronto. Comigo ele mostrava diferente, me fazia pega-lo no pulso e fazia uns tenkans bem vagarosos, mas eu já percebia a firmeza do pulso do Sensei. Sentia a energia. Ele foi me fisgando bem devagar, pois eu, por uma questão de estatus, relutava demais em deixar de ser shodan para recomeçar tudo de novo com uma faixa branca na cintura. Ele me cozinhava em fogo brando. Funcionou, pois pouco tempo depois eu me tornava um praticante convicto de Aikido. Desde o primeiro treino com a faixa branca na cintura, nunca mais voltei a vestir a preta, a não ser quase oito anos depois, após fazer o exame na Associação Central, em noventa e nove. E tem mais, eu só vesti a branca e depois as coloridas que vieram, não somente para agradar o Sensei, mas é que perto dele eu me sentia assim mesmo, muito principiante. No início isso era um grilo terrível para mim, mas tudo foi mudando e com ele era um aprendizado diário, constante. ASB: Como foram as dificuldades encontradas no início? Local, horários dos treinos, etc.? A grande dificuldade era que eu tinha me tornado muito duro. Tive que relaxar, arredondar, ficar mais leve. Essas coisas que todo o aikidoista vai tendo que aprender, a duras penas. Pelo menos para mim foi assim. Outra coisa era entender a linguagem nova que Pádua Sensei nos passava. Eu sofria bastante por me sentir muito responsável, por ser dos primeiros alunos e odiava errar. E parece que na presença de Pádua Sensei era o que eu mais fazia: errar. E ele não dava moleza. Cobrava muito, sem palavras. Eu me estressava bastante, e ele vivia dizendo para eu não me estressar. Era um problema meu mesmo, a ser corrigido. Não tinha nada a ver com ele. ASB: E a sua visão hoje? Algo mudou? Como estão os alunos que Sensei Pádua deixou em Florianópolis? A minha visão mudou. Estou bem melhor. Me sinto bem melhor. Aprendo muito com o Aikido. Pádua Sensei foi e continua sempre sendo um grande mestre. O Aikido em Florianópolis continua crescendo muito e isso devemos a ele, pois foi a partir de um grande trabalho que ele fez que as coisas estão assim. Existe um ditado antigo e muito certo que diz: quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. Eu estava pronto e soube aproveitar o mestre que chegava. Isso vale para todos nós, os primeiros alunos de Pádua Sensei em Floripa. Desses, hoje temos alguns muito brilhantes, é difícil citar nomes, pois são muitos os alunos, os companheiros nossos que são e se tornam cada vez mais importantes no mundo do Aikido de Santa Catarina. Mas eu não podia deixar de falar em Takao Sensei, que ficou substituindo Pádua Sensei quando ele voltou para São Paulo; Fernando Sensei e Carlos Sensei. Este último que tem a incumbência de dirigir os nossos destinos de aikidoistas, hoje, aqui em Santa Catarina. Todos são realmente muito bons e importantes para o Aikido e para todos nós. Depois, todos os shodans catarinenses, porque eu agora sei na prática, por experiência própria, que ser shodan de Aikido é algo que exige muita dedicação de um praticante. E todo o esforço é muito válido. ASB: É isso Zé. Caso queira acrescentar alguma pergunta ou mesmo refazê-las para tornar o texto mais rico e interessante, faça-o, ok? Bem, eu quero agradecer por esta lembrança sua de me entrevistar, mas a não ser por questões históricas, de eu ser o mais antiguinho do Aikido catarinense, não acho que mereça estatus de entrevistado. Sou um aluno comum e atualmente estou procurando conduzir um treino como forma de me aperfeiçoar mais, pois sinto ainda grandes dificuldades, mas já sei que toda dificuldade deve ser transposta através de uma continuidade de treinos. Aí está a maior das respostas. Gostaria de treinar mais. Me cobro isso pois no fundo sei que posso um pouco mais ainda do que costumo dar. Atualmente Carlos Sensei está nos exigindo bastante e isso é muito bom, nos ajuda a vencer a preguiça, nos incentiva a sermos mais determinados, mais perseverantes.
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